A chegada da eletricidade no Brasil

A chegada da eletricidade no Brasil

No dia 28 de fevereiro de 2021, a Metrum comemorou 19 anos. A Metrum está constantemente há 19 anos fornecendo soluções que atendem às necessidades de produtos e serviços de toda cadeia do Sistema Elétrico, seja na geração de energia, na transmissão e distribuição e em concessionárias e consumidores.

Atualmente, temos a energia elétrica como algo tão comum, pois faz parte do nosso dia a dia, mas nesses 19 anos a Metrum trabalhou acompanhando esses avanços tecnológicos. Contudo, quando paramos para pensar, muitas pessoas se impressionam com o avanço da tecnologia dos últimos 20 anos. A princípio, na área da comunicação a tecnologia é primordial, é como se sem ela, não houvesse mais um modo de se comunicar com o outro – hoje temos celulares, smartphones, Internet. Por conseguinte, na área da ciência dos dados a tecnologia é uma constância como o big data, machine learning. E, não menos importante, juntamente a área da saúde em que se emprega a telemedicina, cirurgias com robôs, etc.

Assim, diante desses avanços nos encontramos atordoados e imaginando que hoje vivemos o maior advento da tecnologia.

Contudo, entre os séculos XVIII e XX a descoberta de aplicações da eletricidade assombrou a humanidade. Agora estamos falando de uma sociedade que já utilizava combustível para iluminação pública e de profissões como o próprio iluminador das lâmpadas públicas, dos despertadores – sim, as pessoas eram contratadas para acordarem as outras no horário combinado –, entre outras profissões muito interessantes, mas que com o avanço da tecnologias se tornam obsoletas e já nem existem mais.

Nesse momento da história, toda comunicação ocorrida no mundo demorava muito, por exemplo, eram dias para que uma correspondência atravessasse o Atlântico, entre Londres e Nova York ou entre Rio de Janeiro e Lisboa.

 

Tempo médio para uma correspondência qualquer enviada de Londres chegar ao seu destino em 1852

tabela de tempo médio de uma correnpondencia

 

Atualmente você consegue imaginar uma cidade inteira sair às ruas comemorando o primeiro download via 5G no mundo? Ou algum outro feito tecnológico parecido? Provavelmente não. Porém, quando a primeira comunicação via telegrafia ocorreu entre a Europa e América do Norte foi um grande marco e a cidade de Nova York foi às ruas comemorar, como podemos ver na imagem abaixo.

 

Celebração na Broadway em 01/09/1858

celebracao Broadway

 

Assim, as mensagens trocadas entre o Velho e o Novo Mundo trouxeram uma explosão de entusiasmo e, logo, na manhã seguinte ao acontecimento, uma salva de 100 tiros ocorreu em Nova York. Simultaneamente, as ruas estavam decoradas com bandeiras, os sinos das igrejas tocavam e, ao anoitecer, a cidade estava iluminada. Juntamente com as decorações, no dia 1ºde setembro, ocorreu a grande parada, seguida de procissões e espetáculo de fogos de artifícios.

Portanto, percebemos que os adventos dos séculos XVIII ao XX foram gigantescos. Todo esse prelúdio é para apresentar uma crônica de Olavo Bilac, escrita em 1905, que em meio a toda essa tecnologia, o autor faz um manifesto contra a eletricidade, obviamente em tom de brincadeira, porém, retrata como esses acontecimento sensibilizavam todas as dimensões humanas.

 

Contra a Eletricidade, por Olavo Bilac

Certo amigo meu odeia e amaldiçoa a eletricidade: abomina-a, como assassina da poesia, como distribuidora de uma luz excessiva e escandalosa, que já nos não deixa gozar a melancolia das penumbras, em que medra tão bem a delicada flor do sonho.

Foi anteontem, sexta-feira, que ele se desmanchou, depois de um calmo jantar, em invectivas contra a luz elétrica.

Sexta-feira agoniada, em que muita gente, forçada a sair à noite, teve de ressuscitar o usa d’aquelas lanternas de que se serviam os cariocas de 1820, quando, caso raro, tinham de atravessar a cidade depois do toque de recolher.

Jantáramos juntos, quatro amigos, num amplo terraço deslumbradoramente iluminado por festões de lâmpadas elétricas. Tendo começado a jantar ao cair da noite, não sabíamos que a cidade lá fora estava às escuras, amortalhada na treva espessa. Descemos, saímos: e doeu-nos nos olhos a escuridão, pondo-nos na alma um vago susto.

Seria a revolução?

Raros lampiões estavam ainda acesos: um pequenino ponto luminoso, trêmulo e vago, piscando, de espaço a espaço, nas ruas lúgubres, cheias do espantado vozeio da multidão invisível. O céu, coberto de nuvens negras, pesava sobre a cidade. Trevas em cima, trevas em baixo; e cada rua era um túnel, onde os passos dos transeuntes soavam funereamente.

Somente a Avenida Central, região encantada, onde impera a Fada Eletricidade, conservava o seu habitual esplendor: e a faiscação das suas altas lâmpadas, e a ornamentação fulgurante dos cinematógrafos, que a bordam de um lado e de outro, contrastam impressionadoramente como o negror do resto da cidade.

Toda a multidão afluía para a grande via esplêndida. A multidão tem medo da treva… Os cafés transbordavam gente; e, à porta de cada cinematógrafo, uma longa cauda de povo se formava, assaltando a bilheteria. Toda aquela turba queria ficar fora de casa: a casa, sem gás, é um túmulo.

Nós quatro, conversando, comentávamos o caso.

Não era a mazorca, felizmente. Havia, apenas, uma parede dos operários da companhia do gás. Parede pacífica e platônica, que bem depressa acabaria, como as outras, continuando os pobres trabalhadores a contentar-se com promessas, e prestando o Estado o auxílio da sua força ao Capital, com essa solidariedade que une todos os tiranos numa quebrantável aliança ofensiva e defensiva…

Dos quatro, que passeávamos, um era um velho carioca, já cinquentão, e tão amigo da sua cidade que nunca daqui saiu, – nem para ir a Mendes ou à Barra do Piraí.

E enquanto os outros, com entusiasmo, entoávamos um coro de louvores à fada eletricidade, ele caminhava, resmungando coisas incompreensíveis.

Louvávamos a grande fada, que suspendia sobre as nossas cabeças aqueles globos fulgurantes, e estendia ao longo dos prédios aqueles pendões de luminárias brancas, amarelas, verdes, vermelhas, formando letras e dísticos, aglomerando-se em estrelas e crescentes, dando à Avenida um aspecto de zona de milagre, dotada de uma vegetação fantástica de flores e frutos de fogo.

Mas, levados pelo acaso do passeio, enveredávamos por uma das ruas transversais, e de novo a noite nos cobriu, nos rodeou, nos embrulhou no seu manto sinistro. E foi então que o nosso companheiro cinquentão falou, combatendo o nosso entusiasmo:

― A eletricidade! Se vocês soubessem que alívio é para mim um passeio como este, por uma rua trevosa! Já estou cansado de tanta luz… Ainda sou do tempo dos lampiões de azeite. A cidade era pobre, paupérrima. E, como pobre, e honesta, não tinha luxos. Todos jantavam, em casa, às quatro da tarde. Depois, um pequeno passeio, uma partida de gamão e uma discussão política nas boticas, uma ou outra novena, uma ou outra visita, e, de longe em longe, um fogo de artifício. Jesus! Atualmente, o fogo de artifício é quotidiano e perpétuo! Esta orgia de luz embebeda-me, alucina-me, cega-me! Abençoada seja esta parede, que nos vem dar um pouco de repouso aos olhos e às almas! Continuemos a passear por aqui, por estas calmas ruas que ainda os postes da Light não invadiram… Tenho a impressão de estar revivendo o tempo antigo.

Antigamente, todo o Rio era assim…

Um de nós bocejou:

― Não sei que poesia se pode achar na treva…

O cinquentão inflamou-se:

― Quer você saber qual é o grande crime da eletricidade no Rio? Matou a poesia do luar! Os nossos luares, neste céu incomparável, sempre foram famosos. No inverno carioca, uma noite de lua cheia, no céu escampo, em que desfalecem e morrem todas as estrelas ofuscadas, é uma maravilha sem par, cuja contemplação dá poesia e imaginação a todas as criaturas, – até aos muares das carroças do lixo e aos cachorros vagabundos. O luar do Rio! foi por causa dele que esta cidade teve tantos poetas, no tempo em que ainda havia poetas.

Agora, há… cronistas e burocratas, como este que aqui vai conosco, em que é adorador da eletricidade. Quem faz caso do luar, hoje? Nem o podemos ver: nem levantamos os olhos para o céu; as avenidas e as lâmpadas elétricas cativam toda a nossa atenção; vivemos a olhar o asfalto ignóbil que calcamos aos pés. E ninguém mais vê o luar, quando ele cascateia em rios de prata pelo pendor das montanhas, e mergulha gládios rutilantes na face arrufada do mar, e chora chuveiros de pérolas entre os ramos das árvores. A Eletricidade matou o luar!

Tínhamos chegado ao velho largo do Paço. O jardim, Osório, o chafariz histórico, tudo dormia, sob a capa das trevas. Mas, de repente, rasgou-se uma larga brecha na muralha das nuvens que forravam o céu; e um luar admirável, límpido, de uma brancura e de uma maciez de arminho, suavemente se espalhou sobre a dormente amplidão dos canteiros, dos relvados, das calçadas de cimento. Os oitis animaram-se, bracejaram, vestidos de prata viva. Osório agitou-se sobre o cavalo de bronze, nessa existência fictícia que a fantasmagoria do luar dá sempre às coisas inanimadas. O mar, ao longe, resplandeceu, retalhado por uma larga faixa fúlgida e tremente. Ficamos os quatro extáticos, suspensos, gozando o espetáculo magnífico. E o cinquentão exclamou, abrindo os braços, com um ar de beatitude na face:

― Abençoada seja a parede dos gasistas, que nos permite ver em toda a sua majestade divina, sem o contraste odioso e concorrência indigna da luz artificial, a tua luz incomparável, ó Diana formosa, caçadora de estrelas, mãe de todos os sonhos, consoladora dos tristes!

Todos nós dissemos:

― Amém!

Cerrou-se de novo o véu das nuvens. Dura tão pouco o que é belo!…

Retrocedemos, e enfiamos os passos pela rua da Assembleia, escuríssima; longe, irradiava o clarão da Avenida. E o nosso amigo, cerrando o punho, bradou, naquela mesma voz tonitruosa com que o padre Júlio Maria amaldiçoa o pecado e os pecadores:

― Maldita sejas, fada perversa, inimiga do luar, Satania abominável, filha de Belzebu!

 

Olavo Bilac argumenta de forma apaixonada “contra” a luz elétrica. O ele diria sobre a Internet, os smartphones e a inteligência artificial?